Textos

Bla bla bla bla bla bla bla…

INFÂNCIA ANALÓGICA

Tive a felicidade de ter uma infância livre, não essa entre quatro paredes segurando um joystick na mão. A minha foi uma infância analógica. Nasci em 1965 em Cachoeira do Sul, uma cidade encravada no centro do estado do Rio Grande do Sul. A região se chama “Depressão Central”. Ou seja, nasci fadado a ser um sujeito deprimido. Deve ser por isso que decidi me tornar humorista. Na verdade, se chama Depressão Central porque é uma região plana e baixa favorecendo o cultivo do arroz. Então, além de deprimidos, os cachoeirenses são obrigados a se entupir de arroz em todas as refeições.
No meu tempo, na Idade da Pedra Lascada, os aparatos mais modernos eram a TV e o aparelho de som 3 em 1. O 3 em 1 era o objeto de desejo daqueles tempos: conjugava rádio AM e FM, toca-discos e gravador cassete. E esses eram os produtos com tecnologia de ponta. Havia o barbeador elétrico também, mas eu ainda não precisava usar. Telefone só existia o fixo. O modelo clássico de telefone, que pode ser visto em fotos e filmes do século passado, tinha um disco com dez furos do diâmetro de um dedo cada. Era um furo para cada número. A gente discava o primeiro número e esperava o disco voltar à posição inicial para discar o número seguinte. Trabalhoso, sim, mas era divertido.
Com o tempo, foram surgindo os telefones com botões. Sem dúvida eram mais práticos, mas não tinham o charme do modelo anterior. E muito depois, na Idade da Pedra Polida, surgiram os telefones sem fio. Os primeiros nunca funcionavam direito porque o chiado aumentava à medida que se distanciava o fone da base e a conversa ficava impossível com aquela barulheira. Então era praticamente obrigatório ficar próximo e acabava sendo o mesmo que ter um telefone com fio.
Quando eu tinha seis anos, algo inesperado aconteceu. Numa tarde, bateu aquela vontade de tomar sorvete e fui até o posto de gasolina próximo para comprar um. Uni-duni-tê salamê minguê o escolhido foi um picolé de coco da Kibon. Eu estava com água na boca. O picolé foi comido em segundos. Quando terminei, notei algo no palito. Aproximei meus olhos e li com atenção: “vale um toca-discos”. Fiquei olhando para aquela inscrição sem acreditar no que estava vendo. Pisquei. Pisquei de novo. Então li novamente: o “vale um toca-discos” ainda estava escrito no palito do picolé. Fui correndo mostrar para Elza, que trabalhava em casa. Ela me desdenhou e disse que era mentira minha. Eu não andava com muita credibilidade… Mas nem me importei. Virei as costas para Elza enquanto ela perguntava onde eu ia com tanta pressa. Voltei correndo ao posto de gasolina e mostrei o palito premiado ao dono. Ele me felicitou e confirmou que eu havia ganhado o prêmio.
Uma semana depois chegou o toca-discos. Era cor de laranja, portátil, com o autofalante na tampa. Tiraram uma foto minha no posto de gasolina segurando o aparelho. A foto saiu na capa do jornal local. Uma vizinha me disse que eu havia nascido com o cu virado para a lua. Naquele momento me senti especial e realmente acreditei que eu era sortudo.
No meu tempo, o Período Paleolítico, não existia videogame. Em compensação, havia os pinballs. Quem tem mais de cinquenta anos sabe do que estou falando. Cheguei a me viciar nesse troço. Anos depois, quando eu já era um adulto, quase comprei um pinball do Popeye. Infelizmente o dono voltou atrás e decidiu não vender a máquina. O pinball foi a minha maior obsessão na infância. Eu passava todas as tardes no “Showtime”, o primeiro fliperama de Cachoeira do Sul.
Nasci um ano depois do golpe militar. Durante os meus primeiros anos corriam os anos de chumbo, embora eu nunca tivesse me dado conta disso na época. Era muito pequeno e meus pais não estavam nem aí. Eles queriam dinheiro, estabilidade e nada mais. Não almejavam utopias e pareciam não ter nenhuma ideologia. Lembro vagamente de algumas coisas. Como de uma música ufanista que dizia mais ou menos assim: “Eu te amo meu Brasil, eu te amo. Ninguém segura a juventude do Brasil…”. E tinha um slogan famoso também que era “Brasil, ame-o ou deixe-o”.
Minhas principais atividades na Pré-História eram: comer fruta no pé, jogar futebol no barro e arrumar briga com “estranhos”. Não exatamente nessa ordem. As frutas eram deliciosas. Os jogos de futebol eram verdadeiros clássicos da lama. E as brigas eram limpas, qualquer tipo de arma era proibido. No máximo uma pedra ou um pedaço de pau.
Tudo era muito mais tranquilo naquela época. Não se ouvia falar de assaltos e assassinato só rolava um a cada dez anos. Eu ia sozinho e caminhando até a escola. Podia andar sossegado à noite. Até os meus dezoito anos devo ter visto somente uma arma de fogo. Era um rifle que o meu avô usava na chácara para caçar e espantar bichos.
Ler gibis e assistir desenho animado na TV eram outros dos meus passatempos prediletos. Além de adorar todo tipo de esporte: futebol, tênis e remo foram alguns dos que pratiquei.
Lembro que eu não perdia um capítulo de “O Sítio do Picapau Amarelo”. E meus desenhos preferidos eram Tom & Jerry, Corrida Maluca, Pica-Pau, Pantera Cor de Rosa e Popeye. Só que minha Pantera não era rosa porque nossa TV era em preto e branco. Nessa época quase não havia TV colorida no Brasil, então eu me sentia enganado com minha Pantera Cor de Rosa cinza.
Do pátio de trás da minha casa eu avistava a casa do vizinho. Eles tinham muito mais grana que a gente. Um dia na janela da sala deles brilhavam umas luzes coloridas. Curioso, pulei o muro – naquela época, a gente pulava muros sem levar tiro – e me aproximei da janela. Era a primeira vez que eu via uma TV em cores! Entrei sem bater, afinal, éramos muito amigos, e a primeira coisa que fiz foi aproximar meu rosto até o nariz encostar na tela. Ah, aqueles pixels com as cores básicas separadas! Eu estava hipnotizado… A marca da TV era Telefunken. E era maior e mais nítida do que a nossa.
Desse dia em diante eu passava as tardes assistindo TV na casa dos vizinhos. Enfim, a Pantera Cor de Rosa era de fato rosa, Pica-Pau tinha a crista vermelha e o corpo azul e a calça do Popeye era azul-marinho, como tinha que ser. O problema era quando eu voltava para minha casa e tinha que voltar para o mundo das sombras em preto e branco. Era como tomar vinho Luigi Bosca e depois ter que encarar um Sangue de Boi. Cheguei a colar papel celofane colorido na nossa TV, mas o efeito não era o mesmo. Para mim, ao avistar as cores pixeladas naquela Telefunken do vizinho, havia terminado uma era e outra começava, bem diante de meu nariz.

VERISSIMO, A PRIMEIRA VEZ
No início dos anos oitenta saí da minha cidade natal, Cachoeira do Sul, e me estabeleci em Porto Alegre. A maioria dos jovens do interior seguia esse mesmo caminho. No trajeto de duzentos quilômetros, dentro de um ônibus da Unesul, deixei de ser adolescente para virar adulto.
Juro que foi essa a sensação! Incrível como o tempo pode acelerar e também desacelerar.Daquele momento em diante as brincadeiras da adolescência perderam o sentido e ficaram para trás. Havia chegado a hora de virar adulto. Uma das obrigações da vida que entra sem pedir licença, arrombando a porta.
Dentro do ônibus fiquei preenchendo os formulários de inscrição da UFRGS e da PUC. Na PUC cravei “Publicidade e Propaganda” e na UFRGS não encontrei essa opção e escolhi Química. Escolhi esse curso porque era a matéria que eu mais gostava no segundo grau. E eu gostava por causa de um professor genial que tive, que sempre fumava na classe. Numa das aulas, uma colega acendeu um cigarro e ele pediu para ela apagar. A menina contestou:
-Mas você está fumando.
E ele respondeu, espirituoso:
-Eu posso porque eu sou professor.
Poderia soar autoritário, mas dito por ele não. Minha colega apagou o cigarro enquanto o professor continuou fumando o dele.
Havia um detalhe no formulário da UFRGS: Publicidade e Propaganda estava dentro do curso de Comunicação Social. E eu não sabia disso. Parece uma piada, mas aconteceu de verdade. No final das contas, passei no vestibular da PUC e levei pau em Química. Melhor assim. Sem dúvida as Humanas tinham muito mais a ver comigo.
Um ano depois fiz o vestibular novamente. Dessa vez, passei em Artes Plásticas na Federal e comecei a cursar as duas faculdades ao mesmo tempo. Como os cursos até então não me exigiam muito, deu para tocar adiante sem que eu enlouquecesse de tanto estudar.
Eu tinha vinte anos e a vida estava despertando novamente para mim. Agora eu estava na capital gaúcha e as opções culturais eram imensas. Passei a devorar todo o tipo de cultura e conheci pessoas que foram fundamentais para o meu futuro. Quadrinhos eu desenhava muito e publicava quase nada. Faltava fazer boas conexões.
Um dia eu estava mostrando minha pasta de cartuns no bar do Instituto de Artes. E notei um cara estranho no fundo, vestindo capote e um estiloso chapéu russo. Ele parecia estar interessado na minha pasta, se chamava Alemão Guazzelli e também desenhava quadrinhos. Na época ele fazia um fanzine chamado Kamikaze. Eu não me atrevi a pedir para publicar no fanzine dele porque achava o meu desenho muito tosco. Papo vai, papo vem, um dia descobri que ele era amigo do escritor Luís Fernando Verissimo, que todos diziam ser um cara acessível e simpático. Pedi a ele o telefone do Verissimo, assim meio sem jeito, e ele me deu. Agora era comigo.
Um dia, respirei fundo, tomei coragem e resolvi ligar para a casa dele, de um orelhão. Lúcia, sua esposa, atendeu:
-Eu gostaria de falar com o Verissimo.
-Quem está falando?
-Ele não me conhece. Quem me passou o telefone foi o Alemão Guazzelli. Me chamo Adão. Faço quadrinhos. Queria mostrar meu trabalho a ele.
-Espera um minuto que eu vou chamá-lo.
Pausa. Eu estava muito nervoso. Então senti que alguém pegou o telefone. Meu coração parecia que ia explodir. De repente alguém fala. Reconheci a voz dele das entrevistas na TV:
-Quem fala?
Repeti todo discurso anterior e ele me disse:
-Legal, passa aqui semana que vem. Terça está bom pra você?
Como assim está bom pra “mim”, pensei? Porra! Se ele dissesse para eu passar no dia 29 de fevereiro, eu estaria lá nesse dia.
Na época eu morava no bairro Partenon. Verissimo morava no bairro Petrópolis. São bairros vizinhos e eu até já o tinha visto no ônibus, ele às vezes pegava a mesma linha para ir até o centro. Estávamos distantes por uns quinze minutos de caminhada.
A terça-feira enfim chegou. E lá estava eu, na porta na casa do Verisssimo. Toquei a campainha e a Lúcia veio me atender. Ela gentilmente me ofereceu uma poltrona em uma antessala.
-Espera que eu vou chamá-lo.
Esperei cinco minutos que pareceram cinco horas. Enfim ele chegou e nos cumprimentamos. Sentou na poltrona à minha frente e entreguei minha pasta a ele. Ele não era de falar muito. Começou a folhear a pasta sem pressa e de vez em quando ria de algumas piadas. A cada risada dele meu ego tinha orgasmos múltiplos.
Depois de olhar a pasta, disse:
-Muito legal o seu trabalho. Tem influência do Wolinski, Glauco, Henfil. Publica em algum lugar?
Disse que não, e ele continuou:
-Tenho um amigo em São Paulo. Se quiser posso te conseguir o telefone dele.
-Ah, legal. Obrigado.
-Ele se chama Angeli.
Me passou o telefone e disse:
-Diz que foi recomendado por mim.
Nos despedimos. Acabei não ligando para o Angeli, eu achava meu trabalho ruim para as revistas da editora dele, a Circo.
Na semana seguinte deixei um flyer da minha primeira exposição individual de quadrinhos para o Verissimo que foi no Espaço IAB em Porto Alegre. Para minha surpresa, ele publicou o cartum meu do flyer na sua coluna do jornal Zero Hora. Ele escreveu bem sobre mim, sobre meu trabalho e indicou a exposição!

MATCH POINT

O tênis foi um capítulo importante no meu vasto currículo de esportista. Não era um esporte que me atraía muito na infância, mas minha mãe me botou tanta pilha para eu jogar que acabei entrando em uma escolinha de tênis só para não dar desgosto a ela.
Minha mãe tinha uma fantasia. Ela acreditava que, se eu praticasse um esporte de elite, galgaríamos alguns degraus da escada social e chegaríamos à classe alta. O tênis foi o eleito dela como esporte de elite. Incrível como às vezes os adultos conseguem ser mais ingênuos do que as crianças…
Um dia, entusiasmada, ela trouxe o jornal até mim e mostrou a capa. Estava estampada nela a foto de um tenista vencedor de um Grand Slam posando com seu troféu. Mas o que importava mesmo para minha mãe era o prêmio de alguns milhões de dólares que o campeão tinha embolsado. Então uma luz iluminou o interior da minha cabeça e eu pensei: “Minha mãe está certa. Que burro que sou. Para que trabalhar quarenta horas semanais para ganhar um salário medíocre se eu poderia ganhar milhões em apenas seis sets?”.
Na semana seguinte comecei minhas aulas com o professor Cláudio no clube Rio Branco, em Cachoeira do Sul. Cláudio era um professor dedicado e brincalhão, as aulas eram bastante divertidas. Mas eu nunca me sentia totalmente à vontade no clube. A grande parte dos frequentadores era da classe alta e eu me sentia um verdadeiro intruso, uma peça fora do lugar.
Nele havia quatro quadras de saibro bem cuidadas e um paredão. Geralmente os treinos eram nas quadras e depois eu complementava batendo bola no paredão que ficava junto às piscinas do clube. De vez em quando, a bola quicava no paredão e caía dentro da piscina. Então eu tinha que ir até a beira dela e resgatar a bola com a ajuda da minha raquete. Como minha raquete era de madeira, logo começou a empenar por causa da umidade. Eu tinha uma prensa para endireitá-la, mas ela nunca mais voltou ao normal. Em pouco tempo entortou tanto que ficou parecendo o símbolo do infinito.
Um dia organizaram um campeonato no clube e eu tive que participar. O evento aconteceu num domingo ensolarado de verão. Toda minha família estava lá. Eles vestiram suas melhores roupas, as mesmas que usavam para ir à igreja, e estavam ansiosos para assistir minha performance. Faltando cinco minutos para começar o jogo, todos estavam muito apreensivos por causa de um detalhe: eu não tinha aparecido. Impaciente, o juiz olhava o tempo inteiro para o relógio e minha família começou a ficar preocupada. Enquanto isso, eu estava com meu pai em outro clube, o Caiçara, a cinco quadras dali. Estávamos numa boa, em uma mesa à beira da piscina. Meu pai tomava uma cerveja, eu comia picolé e dava uns mergulhos.
Não tenho uma lembrança muito nítida desse episódio. Não entendo por que meu pai teria me levado a outro clube. Meus pais estavam separados há pouco tempo e havia uma tensão constante entre eles. Talvez fosse isso.
Quando eu estava dando um mergulho, minha mãe apareceu. Ela deu uma bronca no meu pai e me levou pelas orelhas até o Rio Branco. Quando chegamos era tarde demais e eu acabei perdendo por WO. Minha família ficou decepcionada comigo e todos me olharam torto. Eu senti meu rosto esquentar e engoli o choro. O sonho – deles – de me transformar em um tenista milionário tinha ido pelo ralo. Era muita responsabilidade para uma criança. Acabei tomando uns belos cascudos da minha mãe e decidi nunca mais me aproximar de uma quadra de tênis.
Mudei de São Paulo para o Rio de Janeiro em 2000. Fui morar no bairro da Urca, do ladinho do Pão de Açúcar. Um dia liguei a TV e vi a ascensão de um jovem tenista brasileiro que tinha acabado de conquistar o bicampeonato de Roland Garros. Esse tenista era o extraordinário Gustavo Kuerten. Desse dia em diante me entusiasmei pelo tênis e comecei a assistir todos os jogos do Guga. Eu não perdia um. E quando algo me impedia de assistir, programava o videocassete para gravar e assim eu poderia assistir o tape depois.
Passeando pelo Forte da Urca, descobri que davam aulas de tênis ali. Decidido, comprei uma raquete e comecei a tomar aulas. Foi estranho voltar a jogar tênis três décadas depois. Eu lembrava de alguma coisa, mas tive que reaprender tudo do zero, porque eu não tinha uma base forte. Em um mês comecei a convidar vizinhos e amigos para bater bola. Então eu mudei da Urca para o bairro da Gávea e resolvi ficar sócio do clube do Flamengo, o clube preferido dos tenistas da Zona Sul. O clube é grande e possui oito quadras de saibro e duas de cimento. Cheguei por lá timidamente e pouco a pouco fui conhecendo e fazendo amizade com os outros tenistas.
Então o tênis virou uma obsessão. Todo o final de tarde, com a raquete nas costas, eu subia na minha bicicleta Philips preta, contornava a rua Duque Estrada, descia a Marquês de São Vicente, passava pelo Baixo Gávea e, cinco minutos depois, estava no clube do Flamengo, que ficava ao lado no bairro do Leblon. Depois de jogar alguns sets com muito empenho, eu voltava para casa todo suado. Mas sempre dava um jeito de dar uma paradinha no Baixo Gávea para tomar um chopinho e reidratar. O tênis se tornou algo tão presente na minha vida que eu sempre levava a raquete nas minhas viagens. Fosse para São Paulo, Porto Alegre ou Buenos Aires. Pelo menos o tênis tinha uma vantagem sobre o surfe. É muito mais fácil transportar uma raquete que um longboard.
Tempos depois teve um campeonato no clube e os colegas me incentivaram a participar. Acabei me inscrevendo e perdi no primeiro confronto. Mas não desisti e acabei recuperando nas próximas duas disputas. Surpreendentemente ganhei os jogos seguintes e cheguei à final. Eu disputaria o título com um vizinho com quem eu trombava às vezes na Gávea. Ele era de extrema-direita. Algumas vezes fui obrigado a escutar seus discursos inflamados no bar do clube. Ele parecia ter a receita fácil de como acabar com a criminalidade no Brasil. Era só matar os bandidos e os pobres. Meninos de rua também não seriam poupados porque, segundo ele, era a melhor forma de “cortar o mal pela raiz”. Esse era o perfil político do meu adversário. Como tenista ele tinha muito mais experiência do que eu e corria bastante também.
Na hora do bate bola de aquecimento eu estava super nervoso, afinal era o primeiro campeonato que eu disputava. E para piorar, era a final! Perdi o primeiro set, mas não me deixei abalar. No segundo dei tudo de mim e acabei ganhando. Comecei o terceiro set confiante e passei a ganhar. Meu adversário parecia não acreditar no que estava acontecendo. Começou a ficar nervoso e jogou a raquete no chão várias vezes. Acabei fazendo 5 a 0 no terceiro set. A partida estava praticamente ganha. O troféu era quase meu. Só me faltava ganhar um game. Quatro míseros pontinhos. Então aconteceu o que não poderia acontecer… Eu perdi completamente o foco. Comecei a cometer erros bobos. Meu adversário percebeu e, claro, aproveitou para tirar vantagem. De fato, ele era muito mais experiente do que eu. Pude sentir isso na pele. Acabou se recuperando e igualou em 5 a 5! Fiquei muito mal no pequeno intervalo. O impossível parecia estar acontecendo. Um dos outros tenistas se aproximou de mim e tentou me dar um apoio. E me deu umas dicas também. Disse que faltava spin nos meus golpes, por isso minhas bolas eram profundas demais e acabavam saindo. Mas seria uma péssima ideia mudar e fechar a empunhadura no meio de um jogo. Isso precisa de algum treino. Então eu acabei perdendo por sete a cinco. Nenhum dos tenistas presentes acreditou naquela virada. Arrasado, sentei-me no banco, de cabeça baixa. Um tenista que passava ao lado da quadra sentiu o drama e comentou:
-Calma, é só um jogo de tênis!
Sim, ele tinha razão. Era só um jogo de tênis. Mas dói demais quando você tem a vitória nas mãos e ela escorre entre os dedos.
O pior era encontrar o vizinho no bairro quase todos os dias. Isso sempre me obrigava a lembrar da minha triste derrota. Demorei um tempo para absorver o episódio. Pensei muito sobre o jogo e sobre o que poderia ter acontecido dentro de mim, impedindo-me de vencer. Eu só tinha uma certeza: não foi pelo nervosismo que perdi o foco. Estar vencendo por cinco a zero no terceiro set, como eu estava vencendo, é partida ganha. Nesse momento lembro de ter sentido uma sensação de alívio deliciosa… Eu tinha me dado conta de que o impossível era possível, como vencer aquele tenista bem mais experiente do que eu. Com o alívio veio o relaxamento. Então comecei a cometer erros. Eu já havia provado a mim mesmo que poderia vencer. Isso me bastou. Essa era a vitória real para mim. Vencer a partida já não era mais importante.
Talvez toda essa reflexão tenha sido apenas uma desculpa por ter jogado mal no final. Mas foi o que passou pela minha cabeça. Eu buscava compreender e, principalmente, aceitar o que tinha acontecido no jogo. A vitória traz gozo imediato. A derrota, amarga, para ser engolida exige tempo. Bebe-se lentamente, em pequenos goles.

Eu sempre terei Paris

PARIS 1

Se, na juventude, você teve a sorte de viver na cidade de Paris, ela o acompanhará até o resto da sua vida, vá você para onde for, porque Paris é uma festa móvel.
(Ernest Hemingway, para um amigo, 1950)

Essa frase no início de “Paris É uma Festa”, livro de Ernest Hemingway, traduz também o meu sentimento. Paris foi, e continua sendo, muito importante para mim. Cidade luz em minha vida, sem sombra de dúvida.
Sinto que ela ainda me pertence e sempre pertencerá. Quando estou na Europa, dou um jeito de passar uns dias por lá. E percorrer de novo meus passos. Revisitar os lugares que morei. Os apartamentos, os bairros. Os bares que frequentei. Os lugares em que trabalhei. Rememorar, quase reviver. Preciso disso. Muita coisa não existe mais. Alguns outros ainda sobrevivem. As lembranças voltam, muito claras em minha mente. Tanto dos momentos bons quanto dos momentos ruins.
Cheguei em Paris no dia 12 de agosto de 1990. Eu era jovem. Tinha 25 anos. E nunca tinha saído do Brasil. Fiquei por lá sete meses. Sete meses e quatro dias. Voltei para o Brasil no dia 16 de março de 1991. Um dia depois de um memorável show de Iggy Pop no Olympia, que infelizmente eu perdi. Vivi tudo de maneira tão intensa que parece que morei por lá durante anos.
Fui disposto a mergulhar na sociedade e cultura francesas. Estudei francês. Estudei muito. Tanto que quando saí de lá já falava a língua com perfeição. Lembro que numa noite encontrei uma francesa em um balcão de bar. Após conversarmos um pouco, pedi que ela adivinhasse de onde eu era. Ela não conseguiu. Disse que eu tinha “juste un accent”, um leve sotaque. Então eu pedi ao barman um maço de Marlboro, e ela disse:
-Você é brasileiro! Marlboro é coisa de brasileiro.
O inverno foi difícil. Entre encontros e desencontros, acabei passando por ele sozinho, sem namorada e com poucos amigos. Inconscientemente deve ter sido uma opção minha. Não sei bem… Mas talvez eu quisesse experimentar Paris sem ninguém para me distrair.
O fato é que pensei que o frio seria mais fácil de enfrentar. Bastaria fumar um Galoise na Pont-Neuf e estaria tudo bem. Ledo engano… Não foi assim tão romântico.
Um momento me marcou muito no auge do inverno. Voltando da aula de francês, passei pelo Jardin du Luxembourg. Caminhando por lá, encontrei um grupo de estudantes. Eram pequenos, do nível primário. Um deles me olhou rapidamente e correu até a fonte congelada. Pegou um pedaço de gelo, correu de volta. Então se aproximou de mim e, com um olhar sacana, me ofereceu o pedaço de gelo e me disse:
-Je vous offre.
Aceitei o “presente” sorrindo. Agradeci. A brincadeira de menino me comoveu.
E, com o gelo nas mãos, me aqueci naquela tarde de inverno, sozinho em Paris.

Paris 2 – A chegada

No dia 12 de agosto de 1990 eu sobrevoava a Península Ibérica. Eu só tinha 25 anos e aquela era a minha primeira viagem à Europa. Durante toda a minha infância e adolescência jamais imaginei que fosse algo possível para minha vida. Era um sonho se tornando realidade. Tão inacreditável para mim quanto pisar na Lua.
Minha infância foi digna, porém sem grandes luxos. E “viagem internacional” fazia parte da nossa longa lista de luxos. Sem falar que, naquela época, viajar de avião era algo ao alcance de poucos endinheirados sortudos. Quem tem mais de cinquenta anos se lembra da saga que era ir até uma agência da Varig e comprar uma passagem de avião. Era tão chique quanto entrar na Tiffany & Co para comprar um colar de diamantes. Um acontecimento e tanto. Hoje tudo mudou. Basta entrar na internet, dar dois ou três cliques e arrumar as bagagens.
Na minha primeira viagem internacional, eu estava em um vôo da antiga LAN Chile, a aérea preferida dos “sudacas” com orçamento apertado. Amanhecia quando o avião começou o procedimento de descida em direção ao aeroporto de Barajas, em Madrid. Espiei pela janela e pude ver a região de La Mancha, na Espanha. A geografia e a falta de vegetação chamaram minha atenção. Era tão diferente do Brasil que eu conhecia… A paisagem era dourada. Imaginei que seria o reflexo de todo o ouro que tinham roubado da América do Sul.
O pouso foi sereno. Algumas horas depois embarquei em um avião menor da Air France com destino a Paris. Finalmente Paris. Levei um choque ao me deparar pela primeira vez com o multiculturalismo francês. O avião parecia uma “Arca de Noé” voadora com todo o tipo de espécies. Árabes vestiam túnicas longas de algodão cru e africanas lindas portavam turbantes exóticos e vestidos exuberantes em cores. Os cheiros e perfumes também eram variados e novos para o meu inocente olfato. Ao meu lado dois altíssimos negros norte-americanos de terno e gravata acomodavam seus instrumentos no compartimento de bagagens. Provavelmente eram célebres músicos de jazz com agendas lotadas de show por caves em Paris. Infelizmente não os reconheci porque na época eu era um roqueiro fundamentalista. E no meio dessa diversidade intensa havia também pessoas comuns, como eu, vestindo camiseta, tênis, calça jeans e até executivos de terno e gravata. Senti que era um humano “sem sal”, invisível. “Por que não me vesti de gaúcho, com bota, bombacha, lenço e chapeu?”, pensei.
Eu estava sentado no corredor e um jovem negro chegou e assinalou que a poltrona da janela era dele. Levantei e ele sentou no seu lugar. Tentei sorrir, ser simpático, bater um papinho, mas logo senti que o cara queria mais era ficar na dele. Abriu a mochila e tirou de dentro um Walkman de fita K7. Olhei o moderníssimo aparato tecnológico e decidi que seria a primeira coisa que eu compraria em Paris. Eu não queria só Paris. Eu queria Paris com minha trilha sonora preferida.
O avião decolou e em seguida começou o serviço de bordo. A aeromoça era uma senhora francesa, entre os 50 e 60 anos. Era alta, loira, bonita e cheia de confiança. Mas também aparentava ser muito brava. A expressão séria mostrava que ela não estava ali para brincadeiras. Abri minha mesinha e ela perguntou se eu queria “poulet” ou “viande”. Escolhi carne vermelha. Ela colocou a bandeja na mesinha e perguntou se eu queria vinho tinto ou branco. Pedi tinto. Era a primeira vez que eu tomaria um vinho francês. Estava me sentindo um jeca. Mas naquele momento um jeca pra lá de feliz. Eu estava diante de um banquete! E os talheres eram de metal! Que saudades desses tempos de abundância… Nos voos de hoje servem amendoim e olhe lá. Em seguida a aeromoça ofereceu comida ao jovem do lado mas ele recusou. Ele queria ficar na dele. Era autossuficiente. Ele e seu Walkman de última geração. Aquela viagem para ele era um procedimento corriqueiro. Mais uma. A segunda da semana. O que será que o Monsieur Walkman estaria escutando: Les Negresses Vertes ou Les Rita Mitsouko? Esses eram os expoentes da nouvelle vague musical francesa do momento. Então eu me senti um jeca. Um super-herói. O Super-Jeca. E o meu maior superpoder era o superdeslumbramento. Eu era capaz de me deslumbrar com qualquer coisa banal, como uma aeromoça estrangeira, um queijo camembert, um vinho, uma africana bem vestida, um Walkman, etc.
Tomei um gole do vinho e comecei o almoço pelo queijo camembert. No final olhei para o lado e notei que todos os passageiros deixaram o queijo por último. Mais tarde eu aprenderia que os franceses também comem queijo na sobremesa. Vai entender essa gente… Outros povos, outros costumes. Eu tinha muito a aprender para deixar de ser um jeca.
O avião começou a descer e, quando estávamos próximos do pouso, consegui reconhecer ao longe a cidade de Paris cortada pelo rio Sena. Espichei meu corpo em direção à janela para ver se enxergava a Torre Eiffel, mas o Monsieur Walkman me olhou feio e desisti da manobra.
Por volta do meio-dia pousamos no aeroporto de Orly. Desembarquei me sentindo excitado e nervoso. Eu temia um pouco a police aux frontières. Já tinha ouvido muitas histórias terríveis de brasileiros que eram mandados de volta no vôo seguinte por não cumprir com as exigências ou simplesmente porque pegaram um oficial da imigração em um dia ruim. Mas o meu trâmite foi tranquilo, nem me pediram para ver se eu tinha dinheiro suficiente para a estadia. Acho que foi graças ao meu visto de estudante. 
Ça y est. Bonjour Paris. Je m’appelle Adão. Adaô, non. Adão. Assim, anasalado. Ah, você não vai conseguir. Esse som só tem em português. Anasalado. Por isso vocês gostam tanto da música brasileira. Por causa dessa bela sonoridade que acontece quando você solta suavemente um pouco de ar pelo nariz. Ão, Dão, Adão.

PARIS 3 – Saindo do aeroporto

Desembarquei em Paris e logo senti aquela brisa agradável de um verão ameno. Os verões não costumavam ser escaldantes como os atuais. Paris no início da década de noventa era diferente. Havia menos carros nas ruas. Os bairros perto das “Portes de Paris” – que separam a cidade do subúrbio – eram desertos e escuros. Esses mesmos bairros hoje são movimentados, com muitas lojas, restaurantes e vida noturna intensa. Com isso, os aluguéis subiram, obrigando muitas pessoas a se afastarem ainda mais do centro. Esse movimento é um fenômeno urbano mundial.
Ainda era o tempo em que só havia telefone fixo. O celular não passava de um projeto no papel. A internet era rudimentar, quase inexistente. Algumas casas tinham um computador conectado a uma rede chamada “Minitel” que era plugada na linha telefônica. Com esse computador conectado era possível fazer compras online, consultar cotações da bolsa de valores ou algum nome na lista telefônica. Lembro quando um amigo chamou um táxi pela “Minitel”. Eu fiquei completamente assombrado com aquilo. Parecia um filme de ficção científica.
Na França daqueles anos o presidente era o socialista François Mitterrand. Ele era “amigo” dos imigrantes. Portanto, eu havia chegado em boa hora. Falavam de um tal de Jean-Marie Le Pen, um político de ultradireita que sonhava em varrer os estrangeiros a França, fossem eles árabes, africanos, chineses ou sul-americanos. Ou seja, eu estava na lista negra do Le Pen. Aqui no Brasil, o presidente era o Fernando Collor de Mello. Hoje temos Macron e Bolsonaro. Veja só como o mundo dá voltas. Ou não.
Ao passar pela imigração do aeroporto, me senti oficialmente em território francês. Meu entusiasmo era ímpar. Tive a sensação que o Popeye deve sentir quando mata uma lata de espinafre. E então me transformei em um super-herói. De agora em diante nada poderia deter o jovem Adão Iturrusgarai.
Saindo do aeroporto, eu queria gritar! Um deslumbramento absurdo me tomou por inteiro. Eu precisava fazer uma declaração, um manifesto:
-Atenção, franceses, quero passar a todos uma mensagem importante. Vocês ainda não me conhecem mas logo vão ouvir falar muito de mim. Adão Iturrusgarai, guardem bem esse nome. Por enquanto, ele não diz nada para vocês. Mas logo isso vai mudar. Permitam me apresentar: sou um desenhista de quadrinhos muito conhecido no Brasil. Sem sombra de dúvida, o mais conhecido! Podem perguntar a qualquer brasileiro quem é Adão Iturrusgarai que ele vai confirmar. Lá no Brasil sou tão famoso que não consigo caminhar duas quadras sem ser abordado por fãs. Tenho que andar disfarçado com óculos escuros e boné para não ser importunado. Em breve também serei famoso aqui na França. Como Wolinski, Reiser, Coluche, Vuillemin, Margerin, Jano e tantos outros mestres. É só uma questão de tempo. Logo vão me descobrir. Terei em breve uma coluna diária no jornal Libération ou no Le Monde. Mensalmente vou publicar páginas de quadrinhos na L’Écho des Savannes, a melhor revista de humor do mundo. E todo final de ano essas histórias serão compiladas e lançadas em álbum pela editora Albin Michel. É só uma questão de tempo para isso acontecer. Serei um superstar da bande dessinée, exatamente como previu Angeli, pardon my French. Então, caros franceses, aproveitem para interagir comigo agora que tenho tempo livre. Em breve estarei ocupado pensando no cartum que será publicado no dia seguinte e comentado por milhões de franceses. É só uma questão de tempo para isso acontecer. Primeiro tenho que descolar umas roupas mais legais. Este jeans de segunda, esta camiseta e estes tênis são o meu último resquício de terceiro-mundismo. Amanhã mesmo vou comprar botas pretas de bico fino, jeans apertados, gabardine bege, cachecol de lã e chapéu panamá. Vou deixar os cabelos crescerem e fazer um rabo de cavalo. Um brinco na orelha direita poderá cair bem e fará jus às minhas raízes de pirata basco francês. Já me vejo descendo a ladeira da rue Mouffetard, numa cena em preto e branco, seguido por fãs e envolto pela fumaça do meu Gitanes non filtrée. Sim, sim, a marca de cigarros preferida do Serge Gainsbourg, claro. Vou alugar um espaçoso apartamento para montar meu ateliê. Será no último andar de um prédio em alguma rua secundária e tranquila do Quartier Latin, perto dos cafés, grandes boulevards e das melhores papelarias e livrarias. É só uma questão de tempo para isso acontecer. Ah, estou esquecendo do detalhe principal: vou ter uma namorada francesa bem bonita. Pensando bem, vou ter duas namoradas, pourquoi pas? Os franceses são abertos. Evoluídos e degenerados. O ménage à trois é uma instituição em Paris. Existem pouquíssimos casais tradicionais na Cidade Luz. A maioria, uns 85%, são casais de três, quatro ou cinco. E se facilitar entra até um cachorro na festa. Lembram do filme Jules et Jim, do Truffaut? Pois é. Bem assim. E pode ser ménage à trois com dois homens. Não precisa ser com duas mulheres e um homem, aquela fantasia machista. Não tem problema. Eu estou subindo vários degraus, me livrando das amarras do machismo sul-americano. Não sou mais um gaúcho bigodudo vestindo pala, chimarreando e comendo charque no pampa. De agora em diante sou um parisiense, cidadão do mundo, cosmopolita, como preferir. É só uma questão de tempo para isso acontecer. O Brasil, para mim, pertence ao passado. De vez em quando vou ficar sabendo das notícias do meu pobre país de origem através de jornais e revistas: hiperinflação, golpes de estado, corrupção, chacinas e miséria vão me afetar tanto quanto um anúncio de eletrodoméstico. Eu estarei livre dessas mazelas, perfeitamente adaptado ao Primeiro Mundo e o Brasil será apenas uma vaga lembrança. Uma manchinha escura no vidro que se raspa com a unha, depois passa um paninho e fica brilhando. De vez em quando meus melhores amigos do Brasil virão me visitar. Eu vou ter amigos franceses, mas não vou esquecer dos velhos amigos. Eles verão meu triunfo ao vivo e a cores e dirão: “Adão, você fez a coisa certa. Lá tá uma bosta”. Jornalistas da grande imprensa brasileira vão se digladiar para agendar uma entrevista comigo. E eu só darei entrevistas em francês porque já terei esquecido o português. É só uma questão de tempo para isso acontecer. E sei que não será difícil porque o quadrinho é muito bem pago na França. Eles valorizam a arte, sabem o que é bom. Com a venda de um cartum já vou poder pagar um aluguel de um lindo apartamento. Meia dúzia de cartuns mais e pronto! Vida feita. Terei o suficiente para comida, bebida, viagens, roupas e material de desenho. E o que sobrar eu vou guardar no fim do mês para comprar uma casa de campo medieval na costa da Bretagne. É só uma questão de tempo para isso acont…
Meu manifesto deslumbrado e interminável foi abruptamente interrompido. Nesse instante, a agulha da realidade furou meu balão de pensamento e puuuuuuf! Pude enxergar a onomatopeia gigante e colorida a minha volta: PUUUUUUF!
A visão de minhas horrendas malas de napa marrom na esteira de bagagens foi o choque de realidade na minha digressão. Elas estavam cercadas por lindas e modernas malas com rodinhas. Eram muitas malas de grife ofuscando as minhas. Eu fiquei com tanta vergonha que deu vontade de ir embora sem elas. Fiquei olhando a esteira rodar por algum tempo. Minhas malas passavam e passavam na minha frente por vezes seguidas. Seria melhor poder sair do aeroporto sem aquela bagagem.

PARIS 4 – Cité Dupetit-Thouars

Na aurora da década de noventa eu aterrissei no aeroporto de Orly, em Paris. Retirei minhas duas pesadas malas da esteira das bagagens depois de certa hesitação. Coloquei-as no carrinho e em seguida me dirigi até a saída. Lá fora, avistei o Alberto Oliveira, que já me aguardava. Ele me acenou e sorriu. Acenei e sorri de volta. Alberto era um músico gaúcho e estava radicado há anos na França. Eu não o conhecia pessoalmente até então. Ele era amigo da Dedé Ribeiro, minha grande amiga que me estimulou e fez a viagem à Paris ser possível para mim. Ela o incumbiu da tarefa de me ajudar nos primeiros dias em solo estrangeiro. Dedé não queria que eu sofresse como a maioria dos imigrantes recém chegados. Quem já morou fora sabe a diferença que faz ter alguém para ajudar logo ao chegar. Eu ficaria hospedado na casa do Alberto até encontrar um lugar para mim. Ele me apresentaria pessoas e me ajudaria a procurar apartamento. Nos encontramos e nos cumprimentamos muito gentilmente na saída do aeroporto. Então Alberto olhou com estranheza para minhas duas malas grandes e falou:
-Bah, por que tu trouxe tanta coisa?
Disse a ele que eram coisas queridas e que eu não suportaria viver afastado delas. Ele riu.
As “coisas queridas” eram livros, roupas e material de desenho. Até cogitei levar minha prancheta antiga de desenho… Felizmente concluí que não valeria a pena. E ainda poderia ser um motivo para eu levar um cartão vermelho da polícia de imigração e ser sumariamente devolvido ao “Bananão”. O tesouro da minha bagagem eram as centenas de originais de quadrinhos que me transformariam em um prócer dos quadrinhos franceses. Era essa a minha ideia, meu sonho e minha certeza também.
Entramos no táxi e Alberto disse ao motorista:
-Rue Dupetit-Thouars, s’il vous plaît.
Taí uma frase que jamais vou esquecer: “Rue Dupetit-Thouars, s’il vous plaît”. Era a primeira frase para valer em francês que eu escutava. E seria o endereço do meu primeiro lar em Paris, ao lado da station Temple e perto da famosa Place de la République.
Curiosamente, em 2018, 28 anos depois, voltei a Paris. Dessa vez para ministrar uma oficina de quadrinhos. A caminho do local do evento, passei por uma rua que me chamou a atenção. Ela me parecia familiar. Diminuí os passos e fui andando devagar. Aproximei-me da placa da rua e confirmei o que estava escrito: “rue Dupetit-Thouars”. Caminhei mais uma quadra e avistei outra placa que dizia: “Cité Dupetit-Thouars”, uma rua sem saída. O bequinho que foi meu primeiro endereço em paris. “Putain, le monde est petit”, pensei. Olhei para o predinho ao fundo e avistei no último andar a janela do apartamento em que Alberto e sua esposa moravam na época. Hoje eles não moram mais lá. Fiquei emocionado. Pude sentir meu coração bater mais forte. Caminhei até o final da rua. Olhei para os prédios. Inspirei fundo aquele ar. Senti os cheiros. E fechei os olhos por um momento. Magicamente voltei no tempo. Lembrei da minha chegada ali, em 1990. Fazia muito tempo mas as lembranças eram tão nítidas que parecia que tinha sido no dia anterior. Então lembrei do dia em que desembarquei. Da conversa que tive com Alberto e sua esposa logo que cheguei ao apartamento deles. Pude visualizar a cena: eu estava sentado no sofá e os dois à minha frente, sentados em duas cadeiras. Aquela janela que eu reconhecia estava perto e eu tentava dividir minha atenção entre Alberto, a mulher do Alberto e a visão dos telhados de Paris lá fora que eram escancarados para mim por ela. Olhei novamente para a janelinha e imaginei o Adão jovem lá dentro, todo cheio de entusiasmo e sonhos. Naquela época eu carregava toneladas de expectativas. Lembrei de todas elas. Olhei para as construções em volta e notei que a maioria havia sido reformada, mas sin perder la ternura jamás.
Cheguei até a porta do prédio e lembrei do momento em que eu e o Alberto subimos os seis lances de escada com as minhas duas malas pesadas e feias. Lembrei dos degraus antigos de madeira. Alguns chegavam a ranger. Os corredores eram estreitos. Não havia elevador. Os antigos prédios parisienses não possuem elevador porque foram construídos numa época em que elevadores eram coisa de filme de ficção científica. Tal qual o teletransporte. Lembro que chegamos ao sexto andar quase sem fôlego. Então entendi porque as pernas das parisienses eram fortes e bem torneadas.
Andei mais um pouco e procurei um escritório de design que era vizinho dali. Eu sonhei trabalhar nele quando cheguei pela primeira vez. Dei poucos passos e encontrei o lugar. Descobri que o escritório de design agora era uma lavanderia.
Antes de me despedir da Cité Dupetit-Thouars e me dirigir à oficina de quadrinhos, resolvi tirar algumas fotos do lugar. Então eu lembrei do Alberto. Ele tinha morrido há pouco mais de um ano, em 2016, com 59 anos. Fiquei triste. Alberto foi muito legal comigo. Ele tinha uma alma gigante e só me trazia boas lembranças. Ele fez o possível e o impossível para suavizar minha chegada em Paris.
Tive que seguir meu caminho. Olhei em volta para as pessoas que passavam nas ruas e nos carros. Tanta gente indo e vindo e vindo e indo. Elas agora eram outras pessoas. Não eram as mesmas pessoas do início dos anos noventa. As roupas e os penteados eram outros. E suas cores eram outras também. Agora elas andavam com seus rostos enfiados nas telas dos seus celulares e estavam com seus fones de ouvido. Visualizei 1990 como uma foto antiga em preto e branco. Aquelas fotos de época em que todas as pessoas se vestem igual, de terno e chapéu. De certa forma elas dão uma certa sensação de desconforto quando nos damos conta que essas pessoas fotografadas não existem mais. Estão todas mortas. Inclusive as que eram jovens na foto. Essas pessoas já passaram. E foram substituídas por outras. E outras substituirão estas. E outras e outras e outras e outras. Mas a cidade continua lá. Viva e em pé.
O que são duas décadas para uma Paris que resistiu até a Hitler? Eu também tinha sobrevivido à passagem do tempo. Eu estava em Paris em 1990 e também em 2018. Era praticamente um “highlander”. Isso me trouxe uma sensação de conforto.

Paris 5 – Pequena introdução ao francês

Aprender uma língua no país onde ela é a língua nativa é muito mais rápido e fácil.
Os cursinhos de idiomas enchem linguiça demais com bobagens que nunca serão usadas. Então, vou dar umas dicas básicas de francês, daquilo que realmente interessa, caso um dia visite o país do camembert e da mostarda de Dijon.
Vamos começar com o uso do pronome pessoal. Use sempre “vous”. É mais polido. Só use “tu” quando estiver conversando com um amigo ou conhecido. Procure não usar “tu” com quem não tenha intimidade. Pode soar “vulgaire” e ofender alguém. Essa lógica também funciona ao contrário. Com os amigos não se usa “vous”. Se usar “vous” vão se ofender e pedir para usar “tu”.
Nos xingamentos o pronome pessoal também é de suma importância. Se quiser insultar alguém com “politesse”, use a forma “vous”. Por exemplo: “allez vous faire foutre!” é uma forma mais polida que “vas te faire foutre!”. Esse último “vai se foder!” pode soar ofensivo demais. Use “vas te faire foutre!” apenas em casos extremos, de vida ou morte.
Quando cheguei em Paris uma coisa que me chamou a atenção foi o tom coloquial. Isso nenhum professor ou livro haviam me ensinado. Só tinha visto algo parecido nas histórias em quadrinhos. Puxando a brasa para o meu assado: nada melhor que aprender idiomas lendo quadrinhos.
Em Paris, e também em outras regiões da França, as pessoas têm uma forma preguiçosa de pronunciar “je sais pas”, que significa “eu não sei”. Os parisienses são muito ocupados para dizer “je sai pas” desta forma, com todas as letras. Isso exigiria muito tempo, eles perderiam o metrô e acabariam chegando atrasados no trabalho. Então o “je sais pas” é abreviado e vira “chai pas”. E “je suis pas là” se transforma em “chui pas là”. Na verdade o certo seria dizer “je ne sais pas”. Mas quase não se usa a negação “ne” na linguagem informal. Procure usar a negação ”ne” na forma escrita.
Essa dica pode ser bastante útil se um dia você estiver fodido em Paris e tiver que pedir uns trocados no metrô. Em vez de dizer “je suis dans la merde” diga simplesmente: “chui dans la merde”. Soará mais convincente e você terá mais sucesso na empreitada.
As pronúncias das vogais e dos ditongos em francês pedem um treinamento especial. As vogais “a”, “i” e “o” são fáceis porque a sonoridade delas é igual ao português. Mas a coisa complica com o “e” e o “u”. A maneira mais fácil de aprender a pronunciar essas duas vogais é a técnica da batata quente e do passarinho. Para pronunciar o “e” em francês imagine uma batata quente de bom tamanho dentro da sua boca. Faça então um meio biquinho, porque o biquinho radical será usado para pronunciar o “u”, e tente emitir um som entre o “e” e o “u”. O resultado é mais ou menos assim:
-Êêêêêêuuuuoooouuêêêêêêêêêêoooouuuêêêêêêêuuuuuooooêêêê.
Não se fruste se não conseguir na primeira tentativa. Treine mais vezes, de preferência em frente a um espelho, e logo vai conseguir.
Agora vamos à técnica do passarinho para conseguir a pronúncia do “u”. O som do “u” francês se situa entre o nosso “u” e o “i”. Só que é um “i” com biquinho. Um biquinho bem radical.
Aliás, o biquinho é um grande empecilho para os homens latino-americanos aprenderem o francês. Eles confundem o biquinho com uma certa prática sexual e isso acaba sendo alvo de piadas. Bobagem. É só relaxar e se soltar, sair do placard, afinal você está na França e ninguém te conhece.
Então vamos ao som do “u”: imagine que você é um passarinho bebê no ninho. Está com fome e tenta chamar desesperadamente a mamãe pássaro. Em primeiro lugar estique o pescoço para a frente e levante bem a cabeça. Em seguida faça o biquinho radical e só depois disso pronuncie o “u”. O biquinho radical é o mesmo que se faz quando se traga um cigarro. Se você nunca fumou imagine que está tragando qualquer outra coisa cilíndrica.
-Uuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!
Repita várias vezes:
-Iiiii! Iiiii! Iiiiii! Iiiii! Iiiiii! Iiiii! Iiiiii!
Quase isso. Continue tentando. Um dia você chega lá. O som do “u” é muito importante na França. Sem ele não se consegue pronunciar palavras importantes como “cul”, que significa “cu” em português. Se não conseguir pronunciar corretamente “cul”, jamais conseguirá alugar um filme pornô em uma locadora de vídeo.
-Madame, donnez moi un film de cul, s’il vous plaît!
Bom, é verdade que quase não existem mais locadoras, mas fica a dica. Sem a boa pronúncia do “u” você jamais vai ter o prazer de chamar alguem de “cocu”, que significa “chifrudo”.
A conjunção “et” deve ser pronunciada como “e” e não como “i”, esse maldito costume brasileiro. Brasileiro transforma “e” em ‘i” e “o” em “u”. Vamos combinar que não pega bem falar “pulenta” ou “catigoria” em determinadas situações, não é verdade? Em francês, “et” se pronuncia “e”. Uma vez relaxei e soltei um “e” com som de “i”. Minha chefa, uma senhora chique do septième arrondissement, imediatamente me corrigiu. Disse para eu nunca mais repetir aquilo porque era coisa de gente do subúrbio.
Os franceses são tão estranhos que ainda hoje usam uma vogal que era usada no latim medieval, que é a junção das vogais “o” e “e”. O resultado é este: “œ”. Só de olhar para esse símbolo dá medo, não? Acho que é o mesmo medo que eles sentem ao ver o “til” no meu nome. Vamos usar de exemplo a palavra ““cœur”, que significa coração. Para pronunciar esse fonema medieval é preciso fazer um biquinho progressivo que deve ser interrompido antes de atingir biquinho radical, usado para o “u”.
O resultado é mais ou menos assim:
-Ôôôôêêêêêêêuuuuu!
Parece difícil mas depois de algum treino fica fácil. Se você não souber pronunciar “cœur”, jamais vai conseguir expressar o seu amor por alguém ou ir a uma fromagerie e pedir um camembert “fait à cœur”, que seria um camembert bem fedido e mole por dentro. O camembert nesse ponto de maturação é o preferido dos franceses. Seu gosto é semelhante ao de uma meia bem fedida recheada com ricota vencida. Mesmo assim é delicioso.
Depois de tanto perrengue, uma boa notícia: as pronúncias de “au”, “eau” e “eaux” são bem mais fáceis do que parecem. Soam como um “o” fechado. “Eau” se pronuncia “ô”, “beau” se pronuncia “bô” e chateaux é “chatô”. Mole, não?
Talvez a palavra mais difícil de pronunciar em francês seja “serrurrerie” que significa “serralheiro” ou “chaveiro”. “Serrurrerie” parece uma brincadeira de trava línguas e, para complicar mais ainda nossas vidas, essa palavra contem aquelas duas vocais mais chatinhas, que são o “e” e o “u”. Essa é uma das mais difíceis, então cuide bem das chaves do seu apartamento. Se um dia perdê-las, prepare-se para dormir em algum parque ou debaixo de um viaduto.
Agora vamos às dezenas. As dezenas são a confirmação de que o povo francês é de fato bem estranho e adora complicar tudo. Dix, vingt, trente, quarante, cinquante, soixante… tudo vai bem até o sessenta, mas a partir daí a coisa começa a degringolar. Setenta é “soixante-dix”, ou seja, “sessenta mais dez”; oitenta é “quatre-vingts”, que significa “quatro vezes vinte” e noventa é “quatre-vingts-dix”, “quatro vezes vinte mais dez”.
Morei lá em 1991 e dizer esse ano em francês era tão simples quanto formular uma equação de física quântica: “mil neuf cent quatre-vingt-onze”. Em português: “mil novecentos quatro vezes vinte mais onze”. Parece que os suíços, belgas e canadenses usam simplesmente “octante” e “nonante”. Eles não sabem o que estão perdendo.

PARIS 6 – Alguns sotaques

Aeroporto de Orly, 12 de agosto de 1990.
Entramos no táxi e Alberto indicou o destino ao motorista:
-Rue Dupetit-Thouars, s’il vous plaît.
Como eu havia estudado francês antes de viajar, reconheci de primeira o forte sotaque brasileiro do Alberto. O taxista, que dava pinta de árabe, pediu mais referências do destino, também com o evidente e peculiar sotaque. É fácil reconhecer o acento árabe na pronúncia. Em vez de “erre”, eles pronunciam “ere”. Tal qual um gaúcho da fronteira tentando arranhar o francês.
Enquanto Alberto e o taxista discutiam o trajeto e o destino, me senti entre uma batalha de sotaques. Fiquei ali quieto, ouvindo um e depois o outro. Diferenciando as pronúncias, o ritmo das falas, tentando entender o que diziam. Eu estava assimilando tudo o que podia dessa viagem desde que entrei no avião lá no Brasil. Agora estava imerso naquele diálogo absolutamente comum mas, para mim, simplesmente fascinante.
Em Paris vivem muitos africanos e árabes, então logo nos habituamos com esses dois sotaques. Diferentemente do árabe, o africano consegue chegar ao som do “erre”. A diferença está no ritmo. O do africano é cantado e cheio de jogo de cintura, como se estivesse gravando o vocal de um videoclipe de rap. Mas também tem muito rap feito por descendentes de árabes. E tem árabe que nasceu na África. Ah, que confusão… Melhor esquecer este parágrafo, ele não vai servir para muita coisa.
Então vou falar de algo que realmente entendo, como o “accent brésilien”. O sotaque brasileiro se divide em dois grupos: o brasileiro propriamente dito e o sotaque baiano. O sotaque baiano é igual ao brasileiro só que elevado à enésima potência. Ele é aberto, alegre, cantado e reconhecível a quadras de distância. Para saber exatamente como é o sotaque baiano procure uma entrevista com o Gilberto Gil ou o Caetano Veloso falando em francês.
Lembro que certa vez fui visitar uma amiga baiana em Paris. Enquanto conversávamos, chegou um rapaz que estava fazendo uma pequena reforma no seu apartamento. E ela disse, quase gritando, ao rapaz:
-Il fó changê la móquéte, messié!
Você precisa escutar um baiano dizendo “tem que trocar o carpete, senhor!” em francês. Asseguro que não existe nada mais engraçado do que isso.
Assim como o carioca da gema, o porto-alegrense e o paulistano, o parisiente tem seu próprio sotaque. Uma de suas características é que o final de algumas palavras é esticado e parece que nunca vão terminar. Por exemplo: “alors” vira “alorrãããããããããã”. A princípio parece que todo parisiense é afetado, mas logo se acostuma e se percebe que é a forma normal de falar. “Savoir” vira “savoirrããããããããã”, “derrière” vira “derrièrãããããããããã” e “Gare Saint Lazare”, se transforma em “Garãããããã Saint Lazarããããããããããããããããããããããããããã…”. Quando terminar de pronunciar o nome da gare, provavelmente já terá perdido o seu trem. Uma informação importante: nunca tente imitar o parisiense. Vai soar bem falso. Prefira usar seu seu próprio e tosco sotaque.
Uma mania do francês, que a príncipio chama muito a atencão, é a bufada. O francês bufa o tempo inteiro. Talvez por isso eles tenham fama de mal-humorados. Mas a bufada deles não significa necessariamente mau humor. Às vezes pode ser dúvida ou simplesmente uma muleta linguística, como “you know” e “tá ligado?”. E há vários tipos de bufada. Desde a bufada simples, “bff”ou “boffff”, até a mais elaborada que se parece muito com uma resfolegada de cavalo, que soa mais ou menos assim: “bffffffrrrrrrlllll”.
Agora vou falar um pouco do meu sotaque porque não tem graça eu sacanear todo mundo e não me zoar também. Meu sotaque é a ausência de sotaque. Não falo outros idiomas de um jeito normal e ainda não sei o porquê disso. Na Argentina, país onde estou há doze anos, dificilmente reconhecem que sou brasileiro. Normalmente me confundem com inglês, francês ou italiano, mas jamais dizem que sou brasileiro. Bom, há uma vantagem nisso. Ser brasileiro hoje em dia não está pegando muito bem… Quando digo que sou brasileiro, eles se surpreendem e falam que meu sotaque não é de brasileiro. Um dia, o caixa do supermercado daqui me perguntou:
-De donde sos que tenés la tonada travada?
“Tonada travada”. Voilà, o cara resumiu tudo.
Uma vez, em Bruxelas, comecei a bater papo em francês com um barman e ele me disse que meu sotaque era parecido com o pessoal da região de Flandres, onde se fala holandês. Essa foi demais para mim. Para relaxar, fui obrigado a tomar o dobro de bières trappiste.
Depois de alguns meses morando em Paris, um amigo brasileiro, chamado Rodrigo, veio me visitar e fez uma observação. Ele disse que eu mudava de personalidade quando começava a falar francês. Mandei-o à merda porque achei que estivesse debochando de mim. Três décadas depois, em 2018, marquei um encontro em São Paulo com a Geórgia Wolinski, que é a neta do cartunista Georges Wolinski. Comecei falando em português e logo me dei conta que ela queria falar em francês, sua língua nativa. Entendo isso perfeitamente, afinal ela estava morando há bastante tempo no Brasil e devia estar cansada de falar o tempo todo em outra língua. Então, eu comecei a falar em francês com ela. Papo vai, papo vem e ela me olhou de um jeito estranho. Depois deu uma risada e me disse:
-C’est bizarre, Adaô. Quand tu parles français tu changes ta personnalité.
Nesse momento me lembrei do Rodrigo e do que ele já havia me dito lá atrás. Ele não estava me sacaneando quando disse que eu mudava de personalidade quando começava a falar em francês.
Para ferrar tudo, depois de tanto tempo morando na Argentina, meu português foi contaminado pelo castellano. Quando vou para o Brasil, a primeira frase que escuto costuma ser sempre:
-De que país você é?
Que louco. Consegui realizar a façanha de ser estrangeiro até no meu próprio país.

Paris 7 – Primeiros passos

Cheguei em Paris no dia 12 de agosto de 1990.
E ganhei de presente um lindo domingo de verão. Eu estava excitado para valer, afinal era a minha primeira vez na Europa.
Caminhando até a fila do táxi, baixei o olhar e encarei meus pés. Tive uma conversa imaginária com eles. Afinal, eram eles que estavam incumbidos da tarefa de me guiar:
-Ei, vocês dois aí! Já se deram conta de onde estamos? Não estamos mais em Porto Alegre, no Brasil. Estamos na França, pertinho de Paris. Não é demais a sensação? Vocês estão sentindo o que eu sinto? A mesma emoção? Olhem à volta. Não é tudo diferente aqui? As cores, o ar, os cheiros, o asfalto perfeito, a fisionomia das pessoas e seu modo de vestir? A diferença é brutal, não? Aproveitem o momento, pisem certo e firme.
Antes do táxi arrancar, minha mente já estava viajando em velocidade supersônica. Alberto Oliveira, meu anfitrião, dividiu o banco de trás comigo. Ele era um músico gaúcho radicado há bastante tempo em Paris. Tanto tempo que já parecia um autêntico francês. Ele tinha um visual meio rocker, meio corsário, típico do início dos anos 90: cabelo comprido, brinco na orelha e botas pretas de bico fino com um metal no salto para fazer ruído e marcar bem os passos pelas calçadas da Cidade Luz. Olhei para mim mesmo e senti vergonha do meu cabelo curto sem personalidade e de meus opacos tênis brancos. Eu nunca consegui deixar o cabelo crescer. Ele crescia errado e acabava dobrando nas pontas. Um amigo de infância me sacaneava e dizia que pareciam calhas para escoar a água da chuva. Usar tênis pegava mal naquela época na França. Era coisa de norte-americano ou de esportistas. Nenhum francês usava tênis em situações normais como tomar um café em um bistrô ou ler um jornal no banco da praça. Eu precisava fazer algo a respeito. E rápido. Logo Alberto me indicaria um bom lugar para comprar roupas de segunda mão em Paris: o mercado de pulgas perto da Porte de Clignancourt no norte de Paris. No domingo seguinte fomos até lá e arrematei um lindo par de botas usadas inglesas. Elas eram pretas e bem pesadas. O modelo era clássico e não tinha cadarços. Era só afivelar como um cinto. Elas não tinham metal no salto, mas as solas eram duras e marcavam bem as passadas. Eu as trataria muito bem e elas sempre estariam bem lustradas. A grande vantagem é que essas botas vinham com um histórico. O histórico dos passos do antigo dono. Ou dos antigos donos, sei lá, não perguntei a procedência ao vendedor. Pelo estilo, elas deviam ter pertencido a um artista, um roqueiro ou um delinquente. Essas botas tinham um jeitão selvagem, me guiariam não pelos atalhos fáceis, mas pelos caminhos mais curvos e complexos, aqueles cheios de aventuras.
O dia da minha chegada foi a primeira vez que eu encontrei o Alberto pessoalmente. Até aquele momento só tínhamos conversado ao telefone para combinar os detalhes da minha viagem para Paris. E como ele foi legal comigo… Generoso, me ajudou como ninguém. Ele estava ali ao meu lado graças a minha amiga Dedé Ribeiro que fez a ponte entre nós. Os amigos têm essa missão: promover os grandes encontros, possibilitar conexões importantes.
Nas primeiras duas semanas eu ficaria hospedado no apartamento que Alberto dividia com sua esposa, Soraia, pertinho da station Temple. Infelizmente em 2016 recebi a notícia de sua morte. Foi chocante para mim. Alberto se foi prematuramente, aos 59 anos. Tirou o corpo fora, à francesa, comme il faut, sem avisar os amigos.
No lindo domingo ensolarado que me recebeu em solo francês, juntamente com Alberto, estávamos, ele e eu, no banco de trás do táxi. Olhei pela janela e notei que nos aproximávamos de Paris. Os predinhos, bem ao estilo francês, começavam a dar as caras. Todos baixos, parecidos, lado a lado, com seis andares no máximo e com sua principal característica e charme: seus típicos telhados cinzas com janelinhas. Imediatamente pensei: “Quero morar em uma janelinha dessas do telhado”. Minha emoção aumentava a cada quadra que o táxi avançava.
Não havia muito trânsito, então o trajeto do aeroporto de Orly até os arredores de la Place de la République, onde eu me hospedaria, foi tranquilo. No caminho Alberto começou a puxar papo comigo com um sotaque já contaminado pelo francês. Perguntou sobre Porto Alegre, sobre a Dedé, sobre o Brasil e sobre o governo Collor.
O presidente brasileiro era alvo constante de comentários maldosos e chacotas na França. A inflação, o confisco da poupança, o suposto consumo de cocaína, a infantilidade de nosso chefe de estado eram eventualmente notícia nos jornais e noticiários franceses. Mas não com um grande destaque porque o Brasil não tem grande importância para eles, exceto pela bossa nova, pelas praias, pelo carnaval e ponto final. Os franceses tinham os olhos voltados para outros rincões do planeta, como África, Médio e Extremo Oriente. A Europa não estava unificada e o Muro de Berlim ainda estava de pé. Em breve o Muro viria abaixo, com grande estardalhaço, e os franceses receberiam a notícia de uma Alemanha mais forte e unida com um grande temor. Eles tinham um grande trauma disso. A Guerra do Golfo, patrocinada pelos EUA, sob o comando de George Bush pai, havia recentemente começado.
Contei ao Alberto da sorte que tive de não ter depositado meu dinheiro no banco. Zélia Cardoso de Mello, então Ministra da Economia de Fernando Collor de Mello, confiscou a poupança de todos os brasileiros. Até o meu pai, que era classe média baixa, teve seu dinheiro bloqueado. Sagazmente, eu havia trocado todos os meus cruzeiros economizados por dólares. E os dólares ficaram escondidos na sala do meu apartamento, dentro de uma TV antiga toda pichada com tinta spray de várias cores. Em cima dessa TV antiga ficava minha TV “de verdade”, a que funcionava. A TV pichada parecia uma instalação de arte. Todos os meses eu desaparafusava a parte de trás da TV e colocava mais alguns dólares lá dentro, em um envelope. Esse foi um segredo que guardei durante uns dois anos. A TV pichada chamava bastante atenção. Sempre quando eu recebia visitas, comentavam algo. Mas eu nunca contei a ninguém que ela servia de cofre e estava recheada de dólares. Nem aos meus melhores amigos. Se eu tivesse feito como a maioria dos brasileiros e depositado meus cruzeiros no banco, eles teriam sido confiscados e minha viagem seria só um sonho. Um sonho bem ruim. Com um tango bem melancólico de trilha. Eu estaria completamente arrasado no meu apartamento no bairro Partenon, em Porto Alegre. Obrigado a ter como vista alguns cavalos mal cuidados à beira do Arroio Dilúvio que flui ao longo da avenida Ipiranga.
A vida é assim. Às vezes a gente perde e outras vezes a gente ganha. Esta batalha, que era muito importante e teria muito significado para mim, eu havia vencido. Pelo menos o primeiro round.
A partir daquele lindo domingo de verão em agosto de 1990, eu teria os telhados de Paris e o Sena como vista.

Paris 8 – O nada é tudo

Através da janela do táxi eu contemplava a paisagem. Logo percebi que estávamos chegando em Paris. Abaixei o vidro e senti, em cheio, o vento gostoso do ameno verão parisiense batendo em meu rosto. O lindo cenário lá fora passava diante de meus olhos a uma velocidade constante provocando um efeito hipnótico.
Então, uma sensação boa se apoderou de mim. E em seguida senti um desprendimento delicioso, como jamais havia sentido em toda a minha vida. Comecei a pensar e a me dar conta de algumas coisas. A primeira coisa que pensei era que eu não tinha mais nada. Nada me pertencia e eu não pertencia a nada, nem a ninguém. Tudo o que eu tinha havia desaparecido como em um truque de mágica. Assim, puf! O antes já era. Não existia mais. Daqui para a frente seria o depois. E como eu estava ansioso por viver isso!
Voltei um pouco no tempo e lembrei que há apenas vinte horas eu estava em São Paulo me dirigindo ao aeroporto internacional de Guarulhos para embarcar rumo a Paris. Achei estranho porque a impressão que eu tinha é que já havia passado muito mais tempo. Talvez dias, semanas, meses, sei lá. O meu relógio interno havia se descontrolado. Minha noção temporal estava bagunçada. O passado agora pertencia ao passado e desaparecera por completo naquele momento mágico chegando em Paris. Em breve eu não lembraria mais dele. Seria apenas uma sombra. Mas não uma sombra escura, pesada, chapada. Seria uma delicada sombra.
Eu não tinha mais nada e ao mesmo tempo tinha absolutamente tudo pela frente. Um capítulo da minha vida tinha acabado. Foi apagando devagar, suavemente, como um efeito de fade out ao final de um filme. Minha vida agora era um longo seriado, talvez ainda tivesse várias temporadas. Será? Não sei… Aquele primeiro episódio estava acabando.
E não seria um fim abrupto, definitivo. Esse capítulo não terminaria exibindo a palavra “fim” como última imagem, não. No seu lugar aparecia a palavra “continua”. Eu estava novinho em folha para os próximos episódios e temporadas, que prometiam ser emocionantes. Estava me sentindo forte como nunca, afinal há anos eu estava me preparando para aquele momento. Nessa preparação eu havia jogado fora e descartado tudo o que não me serviria mais, exercitado o mais completo desapego. Nada de pesos inúteis e quinquilharias que pudessem dificultar meus próximos passos. Eu precisava estar leve. E eu me sentia assim.
Estava desbravando um caminho novo e, ao mesmo tempo, apagava meus passos, como um fugitivo na floresta que desvanece sua trilha com ramos de árvores, ou entra em um rio para sair dele quilômetros acima, em outra margem, a fim de nunca mais ser encontrado. Surpreendentemente, a sensação de estar longe de casa e perto de nenhum lugar me trazia conforto e segurança. O desconhecido me era acolhedor. Todas as pessoas pertencentes ao meu passado agora não passavam de personagens de outro filme, de outro enredo, de outra história. Elas seguiam suas vidas e eu seguia a minha, como se estivéssemos em universos paralelos. A América Latina, o Brasil, meus pais, amigos, carreira, Porto Alegre, tudo isso tinha ficado para trás. Não existiam mais, puf! Eram apenas imagens desfocadas em preto e branco, como fotos antigas desbotadas e fora de foco jogadas no fundo de uma gaveta que nunca mais seria aberta.
Uma vez um psicanalista me disse algo que nunca esqueci:
-Adão, você funciona melhor quando está à distância.
Essa frase nunca fez tanto sentido para mim quanto naquele momento. O momento em que eu chegava à Paris. E eu estava chegando em forma, completamente livre e sem amarras. Sem laços e sem nenhum compromisso com nada. Se eu tentasse, acho que seria capaz de voar por um instante. Parecia algo mágico. A sensação de total desprendimento era deliciosa. Era como provar da melhor comida, do melhor vinho. Estranhamente eu não sentia nada de ruim. Não havia nenhuma dor com essa forte ruptura. Pensei que deveria sentir algo, afinal acumulamos certas coisas na trajetória de nossas vidas que nos são caras e que queremos manter por perto. Mas eu não sentia isso. Nenhuma dívida com nada. Nenhum vínculo. Nenhum laço. Talvez a dor estivesse ali por perto, à espreita. Mas eu nem pensava nisso. Porque para mim aquele momento era como uma cena perfeita de um filme perfeito. Sem defeitos. Sem o que tirar nem pôr.

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