Não vá para Nova York

Em breve nos marketplaces

O relato a seguir é tão redondinho e fantasioso que poderia ter sido escrito por uma equipe de roteiristas de Hollywood para um desses filmes-catástrofe arrasa-quarteirão. Mas eu juro que aconteceu de verdade. Por Deus. Pela minha mãe, pelos meus filhos, pela minha esposa e até pelos bichinhos de estimação.
Tudo rolou numa viagem que fiz a Nova York em agosto de 2003. Cada fato narrado neste livro é a prova definitiva de que a máxima “a realidade supera a ficção” não é apenas uma frase feita — é a mais pura verdade.
Nesta novela, o terceiro livro em prosa de Adão Iturrusgarai, o autor conta tim-tim por tim-tim uma viagem à Big Apple que teve de tudo: encontros improváveis, pequenas epifanias urbanas e a alegria de reencontrar o gênio dos quadrinhos David Mazzucchelli, que, ao lado de sua esposa, Richmond Lewis, o recebeu calorosamente em Nova York.
Mas a viagem também quase teve um final bizarro e catastrófico. De arrepiar os cabelos. Sem spoiler: veja — ou leia — com seus próprios olhos.


Leia um trecho


DEZ


O tempo passou. Escorreu bastante. E só cinco anos depois, em 1990, consegui juntar um par de dólares e, enfim, cruzei o Atlântico. Depois de uma temporada em Paris, voltei a Porto Alegre no ano seguinte, 1991.
Em 1998, aproveitei a aberração econômica em que um real valia um dólar e atravessei o oceano pela segunda vez. Rodei trinta dias por Espanha e Portugal, como um beatnik extraviado. Gostei tanto de Lisboa que voltei mais duas vezes até o ano 2000.
Curiosamente, em nenhuma dessas ocasiões passou pela minha cabeça viajar para Nova York — apesar de amar a aura da metrópole. Provavelmente por culpa daquela vidente picareta de Porto Alegre, que me cravou a sentença: “Se for a Nova York, você vai morrer.”.
A frase grudou em algum canto do meu inconsciente e, mesmo sem querer, passei a desviar da Big Apple. Troquei a megalópole por outras esquinas do mundo, adiando, sem saber, o encontro com a cidade que sempre me desestabilizou. Minhas paranoias habituais — tipo medo de avião, do Triângulo das Bermudas e de morrer no voo por causa de um parafuso frouxo — também davam certo peso àquela “profecia” maldita. Mas, enfim, em 2003, aconteceu. Pintou uma chance de passar duas semanas em Nova York. Era pouco depois do atentado às Torres Gêmeas. O clima por lá ainda estava meio tenso, mas a vontade de pisar na calçada onde o Lou Reed tropeçava falou mais alto.


Comecei os preparativos. Primeiro, renovei o passaporte. Depois, agendei a entrevista no consulado dos EUA para tirar o visto. Estava apreensivo. Jovem, sem filhos, sem bens e com a conta bancária no vermelho: o perfil ideal para ganhar um carimbo com um NÃO em caixa alta.
No dia marcado, cheguei cedinho ao consulado. Peguei senha, esperei. Meia hora depois, chamaram meu número e me encaminharam para uma sala com três guichês protegidos por vidros grossos — coisa de bunker nuclear. Ao lado, um sujeito esbravejava porque o visto dele foi negado. Gritava, suava, gesticulava.
Juro que por um instante achei que ele fosse infartar e cair duro ali mesmo. Não era, digamos, a cena ideal para acalmar meus nervos.
Aí chegou minha vez. O funcionário do guichê pegou meus documentos, deu uma folheada protocolar e foi até a mesa de um colega. Trocaram algumas palavras enquanto encaravam a tela do computador com a atenção de dois agentes da CIA.
Foi aí que minha paranoia entrou em campo, driblou a razão e fez gol contra: “Pronto, ferrou tudo.
Vasculharam meu blog e encontraram aquele cartum. Uma charge idiota: a bandeira dos Estados Unidos sendo vendida junto com um isqueiro, para sair queimando em protestos. Que ideia de jerico. E o pior — o verdadeiro crime — é que a piada nem era boa. Agora é que eu não entro mesmo nos Estados Unidos. A tensão foi subindo, até que me veio à cabeça a profecia da bruxa porto-alegrense.

Talvez, pensei, se o visto for negado, seja o universo me dando uma colher de chá. Uma chance de continuar vivo. Nesse caso, tanto fazia. Entrar ou não entrar… Deixei nas mãos do destino.
Um minuto depois, o cara voltou e fez algo completamente fora do script: passou pela fresta uma caneta e um papel.
— Desenha uma Aline pra mim?
Travei. “Isso não soa como um pedido de fã. E se for um teste da CIA? Americano não dá ponto sem nó.” Com a mão trêmula, rabisquei a Aline mais torta da história da arte sequencial. Se ele era mesmo fã, deve ter se decepcionado com aquele autógrafo tosco.
O sujeito olhou, sorriu.
— Pra onde você vai?
— Nova York. Duas semanas.
— Seu visto foi aprovado. Have fun!
Agradeci com um “thank you” meio emocionado e saí do consulado com o “have fun!” ecoando na cabeça. Um mantra. Um sinal divino.


Em casa, checklist na mão, comecei os preparativos para valer. Pedi contatos de amigos de amigos de amigos que moravam em Nova York. Não queria saber de foto no terraço do Empire State Building nem de passeio de helicóptero na Estátua da Liberdade. Se tem uma coisa que eu detesto, é programação de turista. Foi então que me lembrei de uma figura maravilhosa que conheci no Rio, em 1994: o desenhista David Mazzucchelli. Trocamos umas cartas entre 1994 e 1996, mas fazia anos que o contato tinha evaporado. Mesmo assim, mandei um e-mail perguntando se ele ainda morava em Nova York, dizendo que eu estaria por lá por duas semanas.
Escrevi sem muita fé na resposta — afinal, o cara era um dos quadrinistas mais importantes do planeta. Devia ter uma fila de mil coisas para fazer antes de responder um e-mail de um Zé-ninguém.
Mas, para minha surpresa, no dia seguinte ele respondeu. Confirmou que estava em Nova York, passou o telefone e escreveu que estava feliz com o reencontro. Disse para eu ligar assim que chegasse.
Quando li a mensagem, fiquei tão feliz que quase dei cabeçadas no teto.


Enfim, chegou o dia. Numa linda tarde carioca, peguei um táxi rumo ao aeroporto. Eu estava tranquilo e perdido nos meus pensamentos que nem percebi aquele fedor horroroso no caminho até o Galeão.
Na minha cabeça, eu já estava nas calçadas de Manhattan. Tap tap tap tap tap tap tap. Sapatos bem lustrados. Meus sapatos, meus faróis. Eu seguiria o brilho deles. Tap tap tap tap tap tap tap.
Horas depois, embarquei num McDonnell Douglas MD-11 da gloriosa Varig com destino à Nova York.
Durante o voo, a maldita frase da bruxa me visitou algumas vezes. Era inevitável. Mas o “have fun!” do simpático funcionário do consulado também ficava rondando minha mente. E, acima de tudo, havia o Deus Mazzucchelli me esperando. No placar emocional, as boas vibrações ganhavam por 2 a 1.


2026 · 110 p. · 15 × 22 cm · preto e branco

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