Amsterdã

Paris por um triz foi meu primeiro livro em prosa. Nele, contei minha saga na Cidade Luz em 1990, em busca de um lugar ao sol e espaços em jornais e revistas para publicar meus quadrinhos. Naquela época, por causa da grana curta, viajei pouco, mas consegui dar uma escapada rápida para Amsterdã.
Foram só três dias que, de tão intensos, pareceram durar uma eternidade.
É disso que trata este novo livro — o meu segundo em prosa. Amsterdã é uma festa é o relato das minhas aventuras doidas na “Veneza do Norte”.
Diferente do livro sobre Paris, neste optei pela terceira pessoa, o que deu mais liberdade ao meu outro eu, o Adaô — aspirante a beatnik e desbravador.
Este livro flerta com a autoficção — termo criado pelo francês Serge Doubrovsky em 1977 para descrever seu romance Fils — aquele gênero em que memória e invenção andam de mãos dadas. Talvez essa seja mesmo a melhor definição para Amsterdã é uma festa: meio autobiografia, meio invenção. De vez em quando, dou asas à imaginação, só para garantir que o leitor não caia no sono.
No início dos anos 90 o mundo era outro, bem diferente do atual. Um mundo pré-internet, com telefones públicos (os “orelhões”), poucos computadores e, no máximo, um ou outro aparelho de fax. Outro tempo. Outra onda. E, ainda assim, algumas coisas não mudaram — como o frio na barriga ao pisar num lugar desconhecido.


Leia um trecho

AMSTERADÃO
Paris, 1990.


Setembro pede as contas e já dá para sentir o ar fresco outonal de Paris. O vento acaricia as copas das árvores que se exibem em tons de amarelo, laranja e vermelho. Se você espremesse e desfocasse um pouco os olhos, a imagem pareceria uma pintura impressionista de Manet. Em breve as folhas cairão e a beleza das cores vai ser transferida para as calçadas e ruas. A Cidade Luz irá ficar mais cinza e ganhar contornos sombrios.
Acompanhado de um Bordeaux decente debaixo do braço, Adaô — assim os franceses pronunciam seu nome — embarca na estação Les Gobelins. Em seguida, troca de linha na Châtelet-Les Halles e desce na République. Alberto e Soraia o esperam com um jantar. Um cuscuz marroquino, prato predileto do nosso herói.
— Adão, você conheceu algum lugar além de Paris?
— Nem saí da região metropolitana, Alberto.
— Uma pena você só ficar aqui. Tem que aproveitar e ir para outros países.
Mas ele é cabeça dura. Quando chega em uma cidade, se instala como se fosse um morador. Insiste em frequentar sempre o mesmo bairro, ir todos os dias na mesma padaria, supermercado e bistrô. Apesar de ter asinhas nos pés, odeia o turismo tradicional, aquela coisa careta de fazer pose e tirar fotos na frente de monumentos. Adaô, você tem que visitar o castelo de Versailles, os jardins de Monet em Giverny, a Eurodisney. Em vão. O birrento não dá ouvidos para esse tipo de conversa.
— Vai mais para o norte. Lá sim é a verdadeira Europa — sugere Soraia. — Paris é meio latina.
— Um lugar que eu gostaria de conhecer é Londres — diz Adaô.
Além de cabeça dura, ele tem um fetiche pela Inglaterra por causa das bandas britânicas, responsáveis por formar seu caráter ao mesmo tempo visceral e melancólico.
— Londres é demais, Adão — ela fala cheia de entusiasmo.
Depois do café e das últimas risadas, Adaô pega o metrô na estação Temple. No caminho, rechea seu Walkman Sony com uma K7 do David Bowie. Embalado pelo balanço do vagão e o ritmo de “The Man Who Sold The World” se imagina flanando em meio ao fog espesso das ruas londrinas com seus prédios de tijolo à vista.


Oh, no, not me
We never lost control
You’re face to face
With the man who sold the world


Na saída da estação Les Gobelins, Adaô, animadinho com as taças que tinha bebido, acompanha a música fazendo um solo imaginário de guitarra em plena avenida. Para sua sorte, não tem nenhum espectador para assistir a performance desajeitada que mais parece um princípio de ataque epiléptico.
Não sei se foi por ter exagerado na comida ou se a ideia de uma viagem ficou martelando na sua cabeça, mas de madrugada um sonho o atormenta: ele está em Londres acompanhado dos “brothers” David Bowie, Ozzy Osbourne e Sid Vicious. Depois de algumas doses de substâncias ilícitas e de passarem por um pub do Chelsea fazendo arruaças, o quarteto caminha até uma praça. Assim que Adaô vê uma estátua equestre, não tem dúvida, sai correndo e em dois minutos vai lá para cima. Quer fazer um discurso, em inglês britânico e de preferência com rimas, para impressionar seus ídolos. Só que bate uma vontade terrível de mijar, sem outra alternativa, abaixa as calças e… Tudo muito divertido, se não tivesse molhado um tanto da cama e deixado um rastro no chão do apartamento antes de chegar ao banheiro.
Mesmo envergonhado, ele se convence que o sonho é um sinal e que precisa conhecer a terra de onde saíram os punks. Adam, you have to come to London Town, sussurra no seu ouvido a voz carregada de sotaque de Bowie.
Depois do almoço, vai até uma agência de turismo especializada em pacotes de viagens de ônibus para estudantes. Avião e trem são caros e Adaô está com o orçamento apertado. Lá dentro há duas filas: uma para Londres e a outra para Amsterdã. Ele, óbvio, entra na de Londres.
Uma garota linda no final da fila de Amsterdã lança alguns olhares para ele. Adaô, que não é nenhum bobo, devolve a paquera. A garota tem charme para dar e vender. Se achando, ele esboça um sorriso que mostra toda a arcada dentária e o brilho prateado das obturações antigas. A operação é um sucesso e a donzela retribui o galanteio. Hábil e discreto como um larápio, ele salta para a fila em que ela está.
Adaô não conhece nada de rock holandês, mas pelo menos a viagem será em ótima companhia. Quanto mais a garota se vira para flertar, mais ele tem certeza de que vai se dar bem. Logo começa a sentir um calorzinho gostoso nos países baixos, que, por coincidência, é o nome do país que está prestes a conhecer. Isso é um sinal enviado pelos deuses da azaração, o ritual do acasalamento vai terminar com a bola nas redes, conclui o rapazote com a testosterona saindo pelas orelhas e pela uretra.
Enquanto a beldade compra a passagem, ele entra em um devaneio com bicicletas, pints de Heineken, coffee shops, canais e prostitutas se exibindo nas vitrines do Bairro Vermelho. Assim que ela sai do guichê com o bilhete em mãos, Adaô pode observar melhor seus atributos. Seus peitos são grandes e lembram os úberes das vacas holandesas, aquelas que produzem o leite mais cremoso do mundo. Depois que ela passa, ele roda o corpo fingindo procurar alguém mas na verdade é para checar sua retaguarda: quadris fartos e bunda em formato de pera, um convite da natureza para Adaô cumprir com sua missão e perpetuar a espécie.
Ansioso, ele paga a passagem e sai rapidinho para não perder sua musa de vista. Lá fora não vê nem sombra dela, já havia sido engolida pelo lagarto gigante da estação de metrô art nouveau. Mas ele não desanima, afinal faltam poucos dias para a viagem e com certeza vai rolar um reencontro.
Na volta ele passa em uma livraria e compra um guia de holandês para viagens. A ideia é afiar o idioma e chegar arrasando no país das tulipas e moinhos de vento.
Em casa, prepara um café e acende um Gitanes. Ao folhear o manual, leva um susto. A impressão que dá é que o operador da gráfica tinha tomado umas e outras e embaralhou todas as letras.
“Hoe gaat het met jou?” soa como uma cantada do tipo “ei, gata, vamos meter?” mas não passa de um inocente “como vai?”. E, “dit is erg duur”, que parece “seu dick está duro”, na verdade é “isto custa muito caro”. “Goedermorgen” lembra algo sinistro, relativo a “morgue”, só que não passa de um educado “bom dia”. Se você ouvir alguém dizendo “Waar komt u vandaan?”, não se preocupe, ele não está te chamando de vândalo e querendo guerra. Simplesmente pergunta a sua nacionalidade. A primeira vista “Kom met mij mee” remete a alguma safadeza, um apelo para fazer um golden shower mas a tradução é um mero “venham comigo”.
“Liesje leerde Lotje lopen langs de lange lindelaan.” Adaô fecha o livro e desiste do idioma trava-línguas. Todo mundo em Amsterdã fala inglês, então que se dane o idioma do país dos tamancos de madeira.
Antes de dormir, fantasia que ordenha uma vaca holandesa e adormece lambuzado de creme de leite batido.


2025 · 146 p. · 15 × 22 cm · preto e branco

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